14/03/2026
𝗔 𝗛𝗶𝘀𝘁𝗲𝗿𝗶𝗮 𝗩𝗮𝗶 𝗱𝗲 𝗧𝗮́𝘅𝗶
Não sou fã do sector do táxi, nunca fui, talvez porque há ofícios que, mal nos aproximamos deles, trazem logo atrás de si um cortejo de impaciências, de velhos vícios, de irritações miúdas, de manias corporativas que nos lembram esse país antigo que resmunga antes de trabalhar, e ainda assim recuso-me a diabolizá-los, recuso-me a essa facilidade ordinária de escolher um inimigo de ocasião para o entregar ao escárnio público, como se a complexidade pudesse ser arrumada num insulto e a inteligência se resumisse a apontar o dedo. Também não acho que os TVDE sejam a melhor coisa que apareceu à face da terra, esse paraíso sobre rodas que alguns descrevem com o fervor de quem finalmente encontrou uma religião portátil para usar no telemóvel. Entre uns e os outros, o que existe e basta existir para incomodar muita gente é concorrência, essa palavra que, em teoria, entusiasma e, na prática, assusta, porque obriga a pensar, a comparar, a pesar, a admitir que o mundo não se divide entre santos de um lado e demónios do outro. E quando se fala destas coisas, destas pequenas guerras de tarifa, de bandeirada, de quilómetro, convinha, pelo menos por decência, ter em atenção tudo o que está em cima da mesa, porque há uma obscenidade particular em falar do que se não conhece, em opinar com a ligeireza satisfeita dos que confundem ruído com razão.
Por exemplo, o arranque, que era de 270 metros, passa para 1000 metros, mais de três vezes o que era, e só isso compensa o aumento da bandeirada no Funchal, embora haja sempre quem olhe para os números como se fossem uma ofensa pessoal e não uma maçadora forma de realidade. E no campo, onde o valor já era de 4 euros, também não se percebe esta encenação aflita, este tom de desabamento nacional, como se a ilha inteira estivesse à beira de ruir por causa de 2 cêntimos por quilómetro, 2 cêntimos, repare-se bem, que em tempos de combustíveis a subir e do custo de vida a apertar o pescoço a toda a gente, não são exactamente o sinal do Apocalipse nem o toque a finados da civilização. Acresce ainda o detalhe de que os indignados profissionais evitam, porque lhes estraga a coreografia, que, desde 2019, não havia qualquer aumento no sector. E por isso ver nisto o fim do mundo, essa catástrofe teatral com que certos espíritos se alimentam para terem assunto, só pode resultar de um alinhamento automático com qualquer coisa que se torna difícil de entender, uma adesão maquinal, quase devota, a uma narrativa pronta a consumir, daquelas que dispensam o pensamento porque já trazem a indignação embalada e a opinião feita.
И.uno
Março 2026