19/06/2026
CRÓNICAS DE UM TAXISTA
• A última morada de uma vaca
São oito e tal da manhã quando estou no Terminal Fluvial do Barreiro. O barco chega (são tantas pessoas que vêm de Lisboa para o Barreiro a esta hora que até dá para contá-las), desses poucos passageiros um deles f**a parado entre dois dos pilares da zona coberta da estação, saca do seu cigarro, mas mira o táxi por duas ou três vezes. Pouco tempo depois à medida que vai fumando desloca-se na direção do local onde eu estou, até que extingue o cigarro e faz-me o gesto, com um bom dia a perguntar se estou livre. Eu digo que sim, cumprimentado-o também com um dia. O cansaço era evidente no rosto do cliente.
C - Posso pagar com cartão.
Eu - Claro que sim.
C - É para a Praceta...
Eu - Ok, essa Praceta f**a ao pé do Aldi.
C - É aí mesmo.
Eu - Então vem do trabalho?
C - Não, venho passar 15 a Portugal, estou a chegar de Inglaterra, vim mesmo agora de Faro.. Era para ter vindo de comboio, mas optei por vir de Expresso, não quis estar à espera, até dei o dinheiro ao motorusta do autocarro para ele comprar o bilhete.
Eu - Ainda foi uma viagem longa!
C - Sabe é que onde vivo, o aeroporto mais próximo f**a a vinte minutos de carro, mas só tem voos diretos para Faro e outro que tem ligações a Lisboa f**a 2 horas e tal.
Eu - Praticamente vai dar ao mesmo com o tempo perdido no autocarro, mas o custo também teve. influência.!
C - Este bilhete custou-ne 30 libras, mas o bilhete de regresso já me custou 100 libras.
Eu - Pelo menos deu para dormir um bocadinho.
C - A dormir, mas com um olho aberto e outro fechado, que era só gente estranha no autocarro.
Eu -:Com a imigração que temos aí, já é normal, mas na Inglaterra já deve estar habituado com os indianos, os paquistaneses, do Bangladesh.
C - É mais romenos, búlgaros, eu vivo numa zona, pode-se dizer que é tipo o Algarve para eles ( não percebi bem o nome, mas penso que seja Bournemouth ). Sabe eu trabalho num matadouro nos arredores. Nunca vi na minha vida tanto animal vivo junto! Olhe que todos os dias são mortas 270 vacas. É impressionante.
Eu - Todo o santo dia.
C - É impressionante, aparecem lá bichos da altura de um cavalo.
Eu - É com choques que elas são abatidas!
T- Levam uns choques no pescoço, se continuarem vivas levam outros, elas estão tipo numa grade e através da patas confirma-se se realmente estão mortas ( não entendi muito bem a avaliação), mas em último caso levam um tiro. Uma coisa é certa dali não sai vivas. Houve uma vez um que não verificou bem, teve que ser evacuado de helicóptero.
Eu - Um tiro!! Também devem ter muitos problemas com os defensores dos animais e fiscalizações.
C - Isso é uma constante, quando surgem as manifestações fecham-se os portões, para ninguem entrar e fiscalizações são regulares e quando eles lá vão é para fazer como eles dizem, não brincam. Uma vez um indivíduo da fiscalização vestiu-se de trabalhador entrou no matadouro, não lhe pediram a identif**ação, esse trabalhador foi logo despedido, eles nesse aspeto não facilitam.
Eu - É uma falta de segurança enorme, então qualquer pessoa pode entrar na fábrica.
C - Esse foi logo despedido, não confirmou a identidade, rua...
Eu - Isso é um local que tem ter muita segurança, higiene, é alimentação, é carne e carne vai toda para a Inglaterra?
C - A maioria da carne é para hambúrgueres, mas é quase tudo exportado para o Japão.
Eu - Deve ser tudo aproveitado.
C - As patas, a gordura que é para sabonetes e velas, quase tudo do animal é aproveitado... Não é preciso entrar na Praceta, pode me deixar na entrada.
Táxi Barreiro e Moita
963 032 191
Bom Fim de Semana